150 anos de Evolucionismo
       Comemorou-se neste mês de fevereiro, em todo o mundo, o bicentenário de nascimento do Pai da Teoria Evolucionista, o cientista britânico Charles Darwin.  Também neste ano, comemora-se os cento e cinquenta anos da publicação de sua obra magna, “A Origem das Espécies”, que revolucionou o mundo da ciência e provocou a ira dos religiosos mais conservadores.
        Considerado um dos gênios da ciência, ao lado, dentre outros, de Kepler, Newton e Einstein, Darwin viajou durante cinco anos a bordo do navio Beagle.  Passando pelo Brasil, deu a volta no extremo sul do continente americano, parando na Patagônia, depois no Chile, e chegando às ilhas Galápagos, no Equador, que se tornaram um laboratório vivo de biologia no mundo, e onde ele recolheu boa parte do seu material de análise.
        A imprensa européia deu destaque à data, enfatizando a importância do papel do cientista para a mudança de paradigma acerca do aparecimento dos seres vivos.  O suíço Le Temps traz em manchete:  “Darwin, o descobridor dos tempos modernos” e diz que algumas pessoas têm, hoje, dificuldades em conciliar uma visão espiritual do mundo com a teoria darwiniana.  O Tribuna de Genebra, também suíço, encarece que a teoria de Darwin permanece sendo a melhor adaptada para explicar o mundo dos seres vivos, hoje em dia.  O belga Le Soir noticia a inauguração, em Bruxelas, da “galeria da evolução”, no Museu de Ciências Naturais, ao mesmo tempo em que enfatiza que o Museu de História Natural de Londres presta homenagem ao seu famoso naturalista, com uma exposição comemorativa do bicentenário do seu nascimento.  A página inicial do Yahoo italiano também dá destaque à efeméride e cita a opinião do professor de neurociência cognitiva da Universidade de Trento, Dr. Giorgio Vallortigara, para quem “a teoria de Darwin é de difícil compreensão para a nossa mente”, pois é mais natural para o homem acreditar numa mente criadora superior, segundo ele.
        Na verdade, a despeito da grandiosidade da teoria formulada pelo genial cientista britânico, suas idéias continuam sendo motivo de acirradas polêmicas, como acontece com as idéias de Descartes, de Einstein e de tantos outros gênios mal compreendidos, nas mais diversas áreas do pensamento humano. Além do que, muita informação nova surgiu, principalmente nestas últimas décadas.  A revista New Scientist, da última semana de janeiro, trazia como matéria de capa: “Darwin was wrong” (Darwin estava errado), enquanto a National Geographic deste mês anuncia:  “What Darwin didn’t know” (O que Darwin não sabia).  O que dizer, então, do criacionismo, que se opõe radicalmente à teoria darwinista e se escora inteiramente na versão mítica do Velho Testamento bíblico?
        O que é certo é que, com todo o conhecimento armazenado pelo homem, mormente nestes últimos três séculos, que assistiram aos grandes passos do desenvolvimento científico, ainda permanecem grandes enigmas não solucionados pelo saber humano.  No âmbito da evolução, ainda não se pode dizer o que é a vida, nem de onde ela vem, como também não se sabe como se deu o aparecimento do homem a partir dos antropóides, prevalecendo a tese do “elo perdido”.
        A doutrina espírita, na sua função de auxiliar da ciência, vem trazer luz às questões mais complexas da vida humana.  Ela é uma doutrina evolucionista que desvenda o mistério do elo perdido, mostrando que é justamente o Espírito que surge na transição do reino animal para o hominal e “transforma” o antropóide no homem.  Ela demonstra que o homem não desceu da árvore, como pretendem alguns setores da ciência, mas surgiu na Terra num momento em que já havia um corpo adequado ao ser simples e ignorante que esperava por suas primeiras encarnações no planeta.  Não há mistério, como não há milagre, nem acaso, nessa questão.  Tudo está de acordo com as leis naturais que regem os fenômenos da vida e da evolução por toda a parte, no Universo.
        Quando a obra de Darwin veio a público, em 1859, O Livro dos Espíritos já tinha dois anos de existência, e ele sustentava claramente a idéia da evolução.  “A Origem das Espécies”, portanto, só fez confirmar a tese espírita.  No entanto, a ciência humana enfoca todos os fenômenos do ponto de vista da matéria.  E a matéria não responde a todos os nossos questionamentos.  A evolução é sempre do princípio inteligente, ou do espírito, mas não da matéria.  É o princípio inteligente que traz potencialidades divinas com capacidade de desenvolvimento.  É ele que está destinado à perfeição, q. 116 do L.E.
        A matéria é coadjuvante especial nesse processo;  é o fluido cósmico universal, inerte, por sua própria natureza, que não se organiza nem se transforma por si mesmo.  Plástica, a matéria presta-se, porém, a assumir todas as formas possíveis, e cada vez mais belas e refinadas, por ação do ser inteligente que a modela.  Na medida em que este evolui e se eleva moralmente, maior a sua capacidade de modelagem daquela.  Isto porque, a matéria é passiva, e permaneceria indefinidamente dispersa no Universo, não fora a ação do ser inteligente, manipulando-a através do seu pensamento e da sua vontade, cf. A Gênese, cap. XIV, n. 14.  Portanto, a matéria não evolui, mas acompanha o progresso do Espírito.  O que evolui, em relação à matéria, são as formas, que se apresentam na razão direta do progresso do ser que as concebe e executa.
        Daí o equívoco de Darwin, que se referiu à evolução das espécies tomando por base as transformações físicas dos seres e atribuindo a seleção natural às condições ambientais sob as quais viviam.  Também erram aqueles que dizem que alguns macacos transformaram-se em homens e que estes desceram das árvores.  Ora, Darwin não levou em conta a existência do princípio inteligente, único responsável pelas transformações físicas por que passaram os seres vivos há milhões e milhões de anos.  Igualmente, nenhum macaco se transformou em homem, mas foi de um ramo dos símios que os primeiros Espíritos a encarnar na Terra emprestaram seus corpos, corpos esses que estavam organicamente adequados à habitação dos Espíritos simples e ignorantes que primeiro apareceram por aqui.  E porque eram homens, embora com corpos de símios, jamais viveram em árvores, como seus ancestrais, nem precisaram delas descer tampouco.
        Desse ponto em diante, homens passaram a gerar homens e os símios já existentes continuaram gerando símios.  “No momento em que o princípio inteligente atinge o grau necessário para ser Espírito e entra no período de humanidade, não tem mais relação com o seu estado primitivo e não é mais a alma dos animais, como a árvore não é a semente.” (L.E., q. 611).  Afinal, “o rio não remonta à nascente” (L.E., q. 612), ou seja, o Espírito jamais retrocede no seu desenvolvimento, seguindo uma rota crescente e ascendente na busca da perfeição.
        Darwin merece as nossas homenagens, por certo, como as de toda a comunidade científica mundial, pela amplitude dos seus estudos e conclusões a que chegou.  Embora suas idéias ainda gerem muitas polêmicas, como a rigor as de todos os gênios que já passaram pela Terra, ele ainda continuará sendo estudado e reverenciado por muito tempo.  E que nos perdoem os adeptos do criacionismo, mas a teoria da evolução das espécies é mais lógica e racional, além de ser eminentemente científica, coisa que o criacionismo não é, absolutamente.
        Todavia, acima de quaisquer abordagens científicas, com todo o respeito, situa-se a Doutrina Espírita, que revelando a existência do Espírito e sua ascendência sobre o elemento material, adentra todos os campos percorridos pela ciência humana, assim como aqueles que a ciência ainda não pôde adentrar, ficando impedida de dar muitas das respostas buscadas pela inteligência humana. 
        Para a ciência espírita, não há “elo perdido”, porque, nas palavras do Codificador, “como não há transições bruscas na natureza, é provável que os primeiros homens que apareceram sobre a Terra pouco diferissem do macaco em sua forma exterior, e sem dúvida também quanto à sua inteligência”, cf. A Gênese, cap. XI, n. 16.  Com isso, a Doutrina Espírita confirma a hipótese darwiniana de que o homem veio do macaco, de fato.  O que difere o homem do macaco é que neste há apenas um princípio inteligente, com um desenvolvimento inferior ao do Espírito que há no homem.  O Espírito, porém, é um produto da evolução do princípio inteligente, que depois de terminar seu estágio no reino animal sofre uma transformação e se torna Espírito.  Não há segredo, nem há nada mais lógico do que isso.
Manuel Portasio Filho