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O Céu e o Inferno

 

       Tendo vindo a público em 1º. de agosto de 1865, O Céu e o Inferno, ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo, ainda é obra pouco lida e estudada no meio espírita, talvez dado o seu caráter particular de uma revisão dos “dogmas fundamentais da teologia do cristianismo formalista, tipo inegável de sincretismo religioso com que o Cristianismo verdadeiro, essencial e não formal, conseguira pentrar na massa impura do mundo e levedá-la à custa de enormes sacrifícios”, diz Herculano Pires, ao escrever uma nota sobre o livro.  Ele começa dizendo que, em última análise, trata-se de um verdadeiro processo de julgamento da Igreja.  Tem por base o Livro Quarto de O Livro dos Espíritos.

        O livro contém duas partes, de fato.  Na primeira, tem-se uma análise criteriosa acerca dos diversos conceitos religiosos, como:  o porvir e o nada;  o temor da morte;  céu, inferno e purgatório;  penas eternas e penas futuras;  anjos e demônios;  e a proibição de evocar os mortos, o que Herculano elenca como a exposição dos fatos que motivaram o processo.  Na segunda parte, estão os relatos de inúmeros Espíritos, reveladores do seu estado na erraticidade, assim como eles contam detalhes muito interessantes a respeito da sua desencarnação, dos motivos que levaram a ela, o que encontraram no mundo espiritual, o que eles efetivamente sabem etc.  É “o depoimento das testemunhas”, segundo o mestre Herculano.

        Enfim, é uma obra ímpar em toda a literatura espírita, seja pelo conjunto dos temas abordados, seja pelo seu aspecto científico indisfarçável, seja pela imparcialidade de Kardec, seja pelo seu espírito criterioso na análise dos dogmas e na escolha das narrativas dos Espíritos evocados.  “A importância deste livro é maior do que realmente se pensa”, conclui Herculano.

Manuel Portasio