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O Espírito e o Tempo

 

        A mediunidade é um atributo do Espírito, que aflora somente na fase humana do desenvolvimento do princípio inteligente, porque depende de uma condição orgânica que apenas o homem possui.  No entanto, ela não surge na Terra ao mesmo tempo que o homem, mas sim numa fase avançada da sua evolução, isto é, no Homo Sapiens mais precisamente, há milhares de anos.  Daí para a frente, ela vai estar presente em todos os tempos, nas mais diversas culturas, das mais primitivas às mais graduadas, material ou espiritualmente.

        É o que nos conta Herculano Pires, com riqueza de detalhes e com os recursos da sua imensa cultura, nesta obra que o estudioso da doutrina não pode deixar de conhecer, ler e estudar.  Herculano descerra os mais diversificados panoramas históricos onde a mediunidade se encontra presente com mais ênfase, desde as sociedades tribais do período pré-histórico, passando pelas grandes civilizações do Egito, da Grécia, de Israel, dos tempos medievais, até o advento da Doutrina dos Espíritos, cuja codificação começa com os frutos da fenomenologia mediúnica e termina na obra incomparável de Allan Kardec.

        Herculano, assim, principia pelo mediunismo primitivo, passa pelo animismo e culto dos ancestrais, pelo mediunismo oracular e pelo mediunismo bíblico, terminando na mediunidade positiva, com Jesus, na primeira parte do livro.  É então que se estabelece a diferenciação entre o mediunismo, que representa a mediunidade em sua expressão natural, ou seja, as práticas empíricas da mediunidade, e a mediunidade propriamente dita, que chega com a Doutrina Espírita, que a explica e aponta o caminho da sua educação.

        Da segunda à quarta parte da obra, Herculano aborda a questão da emancipação espiritual do homem e os diversos problemas advindos do Cristianismo das igrejas praticado pelos homens em face da mediunidade, até o advento do Consolador prometido por Jesus, que vem restaurar a verdade do Cristo e libertar os Espíritos dos seus erros, vícios e temores decorrentes do mau trato da mediunidade ao longo do tempo.  Na última parte do livro, Herculano se concentra nas questões pertinentes à prática mediúnica.

        É obra das mais importantes para a compreensão da problemática mediúnica, com o auxílio dos fatos históricos, sem cujo exame, diz Herculado, “os estudantes de hoje estarão ameaçados de flutuar no abstrato”.  Ela merece mesmo estar entre os mais expressivos exemplares da literatura espírita do séc. XX.

Manuel Portasio