Considerando que o Espiritismo é uma doutrina eminentemente racional, vista sob os prismas científico, filosófico e religioso, podemos agora analisar aquilo que ele absolutamente não é, embora tenha, naturalmente, pontos em comum com outras doutrinas.


            Já vimos que o Espiritismo é uma doutrina espiritualista que, na sua prática, não guarda nenhuma semelhança com as religiões constituídas, pois não tem ritos, rituais ou cultos de nenhuma espécie; não tem sacramentos, como casamento, batismo etc.;  não tem ídolos nem culto a imagens;  não possui rezas nem ladainhas;  não tem templos nem altares;  não utiliza velas nem incenso;  não possui símbolos nem sinais de identificação entre os seus seguidores;  seus adeptos não utilizam uniformes especiais em suas tarefas, nem qualquer deles recebeu ou tomou o título de sacerdote ou sumo sacerdote;  não há tampouco obediência hierárquica a superiores ou a instituições entre as casas onde se dá a prática espírita.


            O verdadeiro culto espírita é interior, inspirado em Jesus e decorrente do sentimento de religiosidade, que é um atributo do Espírito:  “Mas tu, quando orares, entra no teu aposento, e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em oculto;  e teu Pai, que vê secretamente, te recompensará”  (Mt 6:6).  Mesmo o Evangelho no Lar, comumente classificado como culto, é, na verdade, uma prática desprovida de caráter ritualista, tendo apenas uma disciplina a ser observada e respeitada.


            O Espiritismo também não é uma doutrina dogmática, no sentido de possuir pontos fundamentais e indiscutíveis, impostos aos seus seguidores, de cima para baixo;  nem tampouco adota, por mero caráter de obediência cega, decisões de autoridades hierárquicas do próprio movimento espírita.  O Espiritismo é uma doutrina racional, que ensina que tudo se deve passar pelo crivo da razão;  daí, todo estudo, reflexão ou troca de idéias, sobre qualquer ponto da doutrina, é saudável e desejável, até porque a fé espírita é uma fé racional, e não fé cega, como se encontra nas doutrinas dogmáticas em geral.  O Espiritismo não possui dogmas de fé e sim princípios de razão.


            O Espiritismo também não se afeiçoa ao sincretismo religioso, como se poderia pensar, já que esse foi um fenômeno comum na formação das grandes religiões.  O Espiritismo, no seu processo de surgimento e codificação, não se utilizou do método de fusão de elementos culturais ou religiosos, de símbolos ou práticas humanas tradicionais para formar o seu corpo de doutrina.  Ele traz idéias que já se faziam presentes em antigas filosofias ou culturas do mundo, como a reencarnação, o corpo espiritual, o espírito ou alma, o mundo dos espíritos, a manifestação dos espíritos, a prática mediúnica e a idéia de Deus, mas agora explicados à luz da razão, com uma lógica irrefutável, como nunca antes houvera sido.


            Tampouco se pode confundir o Espiritismo com as formas dos cultos afro-brasileiros, como a umbanda, a quimbanda, a aruanda e o candomblé, como comumente acontece.  Embora essas práticas sejam igualmente espiritualistas; embora envolvam também fenômenos produzidos por Espíritos desencarnados;  embora se faça caridade, se admita a reencarnação e se renda culto a Deus, no caso da umbanda, especialmente, esta tem culto material, ritual, “pais” de terreiro, imagens e altares, sacrifício de animais, sinais, “pontos riscados”, charutos, velas, defumadores, bebidas alcoólicas etc., além de uma nomenclatura muito diferente. Como observou Deolindo Amorim, “a Umbanda e o Espiritismo estão situados em campos distintos, não podem ser a mesma coisa, como se costuma dizer.” 
            O Espiritismo não é misticismo, prática que admite a comunicação direta entre o homem e Deus e prescreve atitudes que podem colocar o indivíduo em contato direto com ele, como o pensamento, a meditação e a contemplação, graus progressivos de ascensão, e, em última instância, o êxtase, que é o grau de união do homem a Deus.  Tudo isso indica uma atitude passiva do homem, que se isola em si mesmo, para alcançar os níveis mais elevados da vida espiritual.  No Espiritismo, a ligação com Deus se dá com a prática da oração, em que o indivíduo sai de si mesmo em busca da ajuda espiritual para a solução dos seus problemas, e principalmente com a prática da caridade, que é o amor em ação, direcionado ao seu próximo, como Jesus ensinou.


            O Espiritismo não é esoterismo, doutrina reservada a um círculo restrito de iniciados, como as que existiam nas antigas culturas, como a egípcia e a grega, por exemplo, onde se estabeleciam ritos de passagem para os candidatos frequentarem os níveis mais avançados do conhecimento doutrinário, geralmente de cunho sobrenatural.  Somente os mais preparados, física e intelectualmente, eram supostos passar em todas as provas e desafios.

 
            Embora tenha pontos de contato com o próprio Esoterismo, assim como com o Bramanismo, a Teosofia e a Rosacruz, quais sejam, a imortalidade da alma, a reencarnação e a existência de Deus, o Espiritismo, em seu conjunto, nada tem a ver com essas doutrinas, nem deriva das velhas escolas orientais, como a maior parte delas.  O Espiritismo partiu da observação e análise dos fatos e, da mesma forma que as ciências positivas, Kardec aplicou o método experimental, tirando as conclusões necessárias para a estruturação do corpo doutrinário espírita.


             O Espiritismo não é uma doutrina elitista, reservada a poucos, mas se destina a todos aqueles que desejam estudá-lo e conhecê-lo, exercitando o seu livre-arbítrio e a sua vontade, ou seja, ele não é destinado a alguns privilegiados ou bem dotados intelectualmente, mas pode ser frequentado por pessoas de todos os níveis, das mais cultas às mais humildes.  O Espiritismo é uma doutrina que esclarece, através de cursos e estudos sistemáticos, com programas previamente elaborados, além das palestras, seminários e congressos que se realizam frequentemente, em todos os continentes, pois há grupos espíritas nos ‘quatro cantos’ do Planeta.


            O Espiritismo não se equipara à magia, que é conceituada como “a ciência tradicional dos segredos da natureza, que nos vem dos magos”, no dizer de Eliphas Levi, um dos maiores ocultistas ocidentais.  Há uma divisão clássica entre magia branca e magia negra, enquanto no Espiritismo não há nenhum tipo de divisão, ou diferentes categorias.  Espiritismo e magia se utilizam de processos diferentes, de tal sorte que nas práticas espíritas não se recorre aos recursos da magia.  Como disse Deolindo Amorim, “o Espiritismo é uma doutrina que se basta a si mesma, sem empréstimos nem acréscimos artificiais”.


            Dentro do quadro das atividades mágicas, podemos incluir a feitiçaria e o curandeirismo, práticas primitivas, nascidas no ambiente tribal, além da benzedura, que algumas pessoas aplicam, geralmente em suas próprias casas;  o próprio passe, como ensina Herculano Pires, “nasceu nas civilizações da selva, como um elemento da magia selvagem, um rito das crenças primitivas”.  Seus praticantes achavam-se investidos de poderes misteriosos, mas eram simplesmente médiuns de cura.  No Espiritismo, não poderiam existir esses resíduos mágicos, já que se trata de uma doutrina racionalista, que se baseia nos ensinos e exemplos de Jesus, que praticava a imposição de mãos nas curas que realizou.  Daí a necessidade do esclarecimento do passista e da educação do médium para a tarefa espírita.


            Por outro lado, não são práticas espíritas a cromoterapia, a terapia regressiva a vivências passadas, a transcomunicação instrumental e a apometria, muito em voga nos dias atuais, embora todas essas atividades envolvam conceitos espíritas e até a participação dos próprios Espíritos na maioria dos casos.  No entanto, elas se dão geralmente fora do ambiente das Casas Espíritas e não contam com o suporte da Espiritualidade, a não ser quando os próprios Espíritos tomem a iniciativa de realizá-las, ou participar delas, por razões que só cabe a eles avaliar.


            No Espiritismo também não há milagres, porque Jesus jamais os realizou.  Os milagres seriam uma derrogação das leis da Natureza e o próprio Cristo disse que veio para cumprir a lei.  As curas extraordinárias que realizou são hoje perfeitamente explicáveis, à luz da ciência espírita, como fez Kardec no cap. XV de A Gênese, e com base na teoria dos fluidos, cap. XIV da mesma obra.  Aliás, Deus também não opera milagres, mas tudo o que acontece no Universo está em perfeita consonância com as suas leis, sábias, inderrogáveis e imutáveis.  Enfim, o único “milagre” de que se pode falar no meio espírita é o da transformação moral do indivíduo que envida esforços para combater suas más inclinações e procede assim à sua reforma interior.


                        Por fim, não é adequado usar-se as expressões:  “Espiritismo kardecista”, “Kardecismo”, “Espiritismo de mesa branca” ou “baixo Espiritismo”, para designar-se a Doutrina Espírita.  Em primeiro lugar, porque Allan Kardec não foi o autor ou criador da doutrina;  ele foi apenas o seu codificador.  A doutrina é, na verdade, dos Espíritos, e não dos homens.  Em segundo lugar, porque não cabe nenhuma qualificação ou adjetivação em relação ao seu nome;  ela é simplesmente o Espiritismo, e não necessita de nenhum objeto ou símbolo que a identifique.
            Acima de tudo, se somos espíritas, se amamos a doutrina que agora abraçamos, devemos lutar, a cada passo, sem nos omitirmos jamais, pela manutenção da pureza doutrinária, como nos ensinava o saudoso Dr. Ary Lex.  A Doutrina Espírita é de uma beleza e de uma preciosidade só comparáveis às dos ensinos de Jesus, de que é oriunda, razão pela qual não podemos deixar que seja maculada pela infiltração de conceitos e práticas antidoutrinários, que vez por outra rondam as mentes dos invigilantes, novidadeiros ou desconhecedores dos princípios doutrinários.  Evitemos as falsas interpretações, as deturpações, a adoção de crendices ridículas e as idéias mirabolantes, que só rebaixam a Doutrina ao invés de melhorá-la.  E nem pretendamos alterar o teor das suas obras básicas, a pretexto de atualizar a sua linguagem, já que elas devem ser mantidas tal qual foram escritas.


            Saibamos discernir o certo do errado ou separar o joio do trigo, na base exclusiva do estudo doutrinário e da humildade, sem jamais nos acomodarmos e sem abandonarmos as nossas funções, delegadas pelo Cristo.  Caso contrário, logo estaremos tornando a Doutrina desacreditada e enfraquecida, do que seremos os únicos responsáveis.  Valorizemos o seu caráter racional, o seu espírito consolador e a sua origem espiritual, de modo a prosseguir em nosso esforço de auto-burilamento e transcendência, apoiados em seus princípios superiores.